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(conto + vídeo de Giovani Rufino outrora criado para o show #comprovendotrocoAMOR e agora revisitado adessando em camadas sonoras criadas em parceria com Roquildes Junior)

Era tempo de ressaca.

O mar regurgitava tudo que lhe cabia.

Os barcos ancorados se espatifavam.

Os coqueiros se suicidavam por minutos.

A maresia corroía até o metal das obturações de quem pensasse em passar perto da praia.

Na areia, o cascalho re-revirado da marola de um dia em que se cantou pra se encantar.

Inaê, muda, não arredava o pé do farol já arruinado.

Marta dizia que a dona das águas tinha brigado com o tempo.

Rosa garantiu que a chateação era porque ninguém mais lhe acendia uma vela.

Soraia tomou partido e rezou até se perder entre Ave-Maria e Salve Rainha.

Pedro fez promessa, raspou a cabeça e furou o dedo.

Nalva previu que só um homem de paixão poderia dar fim a revolta das águas.

Joaquim correu nu pela praça no dia da tempestade.

Dunda se escondeu debaixo da saia de Luzia.

Mira contou a Zefa que nunca na vida tinha visto um revira-mar desse jeito.

Beto abandonou tudo e partiu pra nunca mais voltar.

Ana botou fogo no juízo, na casa, na vila.

Mas Arlindo, logo Arlindo…

Quem diria!

Mirrado, com a camisa veia azul manchada de Qboa, saiu quando ainda nem bem tinha amanhecido, sem beijar Nininha, nem pedir a benção a Seu Romero, só com o gosto do último gole que fechava os 24 litros de cachaça.

Entrou num acordo com o tempo e contando os passos tratou de conversar com as nuvens carregadas de desespero que não paravam de chorar chuva há mais de mês.

Firme em linha, caminhou rumo as ondas esbranquiçadas de sal, mais altas que a antena de TV. 

Fez um maço com meia dúzia de flores que restavam pela estrada ensopada.

Enxugou a 1007ª lágrima que escorreu na fronteira entre seu cílio e a ruga acima da bochecha.

Cambaleou os 648 passos e se jogou A-MAR.

Não teve tempo nem de segurar a respiração.

Não fechou nem os olhos pra não arder.

Não pediu nem licença pra entrar.

A boca azul agigantada lhe engoliu de uma só vez.

Inaê, Marta, Rosa, Soraia, Pedro, Nalva, Joaquim, Dunda, Mira, Ana, só não Beto que nunca mais voltou… todo mundo correu, parou, arriou, se amuou diante do que viam.

Ressaqueados, ele, o mar, a rainha, o pescador, era tudo uma coisa só.

Cara a cara, paixão e tragédia, entrega e conciliação.

Nem bem os 20 olhos pestanejaram e entoou Yê, yê, odô, yá, yabá, A-MAR

Era Arlindo, mar-lindo que nunca, coberto de búzio, com um sem fim de peixe na rede, voltando mar aberto com uma pedra azul-dourado na caixa dos peitos.

Já era a revolta, a dor, o choro.

Já era o fim.

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