(tela bordada à mão)

bordado, crochê, costura. criado num circuito de intensa presença feminina, sempre vi as mulheres de minha família entretidas entre as linhas e os tecidos. elas criavam adornos para despertar beleza e bem-estar. cama, cozinha, banheiro. corpo, casa. cada ponto, uma intimidade, uma história partilhada. menino, eu as observava com olhos de quem quer ser parte daquilo. mas não me deixavam. "isso não é coisa pra você", ouvi muitas vezes. guardei em mim a imagem daquelas mulheres que teciam vidas com agulhas. adulto, conversando com minha mais velha, lembrei disso e ela me contou que aprendeu e ajudou muita gente a falar de si através do fio. quando era pequena guardava os pedaços de panos e linhas que sobravam da costura de sua avó e pelos cantos seguia escrevendo, desenhando, bordando suas questões. adulta, desempregada, começou a dar aulas de bordado e crochê a mulheres da comunidade. no primeiro encontro, lhes dava um pedaço de tecido, uma linha, uma agulha e pedia: "bordem como vocês se sentindo hoje". era o suficiente para que os encontros fossem além das técnicas de fio. choros, risos, desabafos, histórias que versavam do amor à violência doméstica. acolhimento, espelhamento, empoderamento. eram instantes em que os fios costuravam intimidade e afirmação. lembrando-se que um dia eu havia pedido pra aprender e ela me havia negado (talvez com medo de que isso me fizesse mais ou menos gay, uma vez que minha criança viada já gritava), terminou de contar isso me entregando uma caixinha e pedindo: "deixa eu saber mais de você". tecido, agulho, fio. chorando fiz isto que aqui partilho. 

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